Mostrando postagens com marcador G. K. Chesterton. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador G. K. Chesterton. Mostrar todas as postagens

domingo, 22 de março de 2015

Sobre o progressismo (Chesterton)

Todos os ideais e expressões populares modernos são evasivas para evitar o problema do que é o bem. Gostamos de falar de “liberdade”, ou seja, temos uma desculpa para evitar discutir o que é bom. Gostamos de falar do “progresso”, ou seja, temos um expediente para evitar discutir o que é bom. Gostamos de falar de “educação”, ou seja, temos um método para evitar discutir o que é bom. O homem moderno diz: “Deixemos de lado todos os padrões arbitrários e abracemos a liberdade”. Caso isto seja logicamente compreendido, significa, “Não decidamos o que é bom, mas deixemos que seja considerado bom não decidir”. Diz também, “Fora com nossa antiga fórmula moral; sou pelo progresso”. Isso, logicamente compreendido, significa: “Não fixemos o que é bom; mas estabeleçamos se vamos receber mais do mesmo”. Diz ainda, “Não é nem na religião nem na moral, meu amigo, que repousa a esperança da raça, mas na educação”. Isso, claramente expresso, significa: “Não podemos decidir o que é bom, mas deixemos que seja dado aos nossos filhos”.

[…]

Estamos apenas passando ao homem gerado um problema que nós mesmos não ousamos resolver. É como se alguém fosse perguntado, “Para que serve um martelo?”, e a pessoa respondesse, “Para fazer martelos”; e quando lhe fosse perguntado, “E esses outros martelos, para que servem?”, tal pessoa respondesse, “Para fazer outros martelos”. Esse homem estaria perpetuamente evitando a questão do supremo uso da carpintaria. Da mesma forma, o sr. H.G. Wells e todos os demais, pelo bom uso dessas expressões, evitam a questão do valor último da vida humana.

[…]

O progresso, devidamente compreendido, tem, de fato, um significado muito digno e legítimo. Mas, se usado em contraposição a ideais morais definidos, se torna absurdo. Assim, mesmo não sendo verdade que o ideal de progresso deva ser confrontado com a finalidade ética ou religiosa, o inverso é verdadeiro. Ninguém pode usar a palavra “progresso” a menos que tenha um credo definido e um rígido código moral. Ninguém pode ser progressista sem ser doutrinário. Quase poderia dizer que ninguém pode ser progressista sem ser infalível — de qualquer forma, sem acreditar em certa infalibilidade. Pois o progresso, pelo próprio nome, indica uma direção; e no momento que temos a mais ínfima dúvida sobre qual direção tomar, ficamos, da mesma forma, em dúvida sobre o progresso. Talvez, desde o começo do mundo, nunca tenha havido um período com menos direito de usar a palavra “progresso” do que o nosso. No católico século XII, no filosófico século XVIII, a direção pode ter sido boa ou ruim, os homens podem ter discordado mais ou menos a respeito do quanto progrediram, e em qual direção, mas, no geral, concordavam a respeito da direção tomada, e consequentemente, tinham a genuína sensação de progresso. Todavia, discordamos exatamente sobre a direção. Se a futura excelência reside em ter mais ou menos leis, em ter mais ou menos liberdade; se a propriedade será finalmente concentrada ou finalmente dividida; se a paixão sexual alcançará um patamar saudável num intelectualismo quase virgem ou numa completa liberdade animal; se devemos amar a todos com Tolstói ou se não devemos poupar ninguém como Nietzsche, — é a respeito dessas coisas que lutamos hoje em dia. Não só é verdade que a época que menos determinou o que é o progresso seja a mais “progressista” das eras, como, aliás, é verdadeiro que o povo que menos estabeleceu o que é o progresso, seja o povo mais “progressista”. À massa comum, aos homens que nunca se preocuparam com o progresso, talvez possa ser confiado o progresso. Os indivíduos particulares que falam sobre o progresso correriam para os quatro cantos do mundo quando o disparo do tiro assinalasse o começo da corrida. Não digo, portanto, que a palavra “progresso” não tenha significado; digo que não tem significado sem a definição prévia de uma doutrina moral, e que tal definição só pode ser aplicada a grupos de pessoas que mantenham uma doutrina comum. O progresso não é uma palavra ilegítima, mas parece ser logicamente evidente que é ilegítima para nós. É uma palavra sagrada, uma palavra que só poderia ser usada acertadamente pelos crentes fervorosos e nas eras de fé.

G. K. Chesterton | O Ressurgimento da Filosofia – Por quê?

Os homens sempre têm uma de duas coisas: ou uma completa e consciente filosofia ou uma inconsciente aceitação de fragmentos dispersos de alguma incompleta, devastada e, freqüentemente, desacreditada filosofia. Esses fragmentos dispersos são as frases que eu citei: eficiência, evolução etc. A idéia de ser “prático”, em si mesma, é tudo que resta de um Pragmatismo que não se sustenta. É impossível ser prático sem uma Pragma. E o que aconteceria se você abordasse o próximo homem prático que encontrasse e dissesse ao pobre pateta: “Onde está sua Pragma?” Fazer o trabalho mais próximo e imediato é um nonsense óbvio; mesmo assim, isso é repetido em muitos almanaques. Em noventa por cento dos casos, isso significaria fazer o trabalho a que você menos se adequasse, tal como limpar janelas ou esmurrar um policial.

[…]

Filosofia é meramente pensamento que foi cuidadosamente considerado. É, freqüentemente, muito enfadonho. Mas, o homem não tem alternativa, exceto entre ser influenciado pelo pensamento refletido ou ser influenciado pelo pensamento irrefletido. O último é o que comumente chamamos, hoje, de cultura e erudição. Mas o homem é sempre influenciado por pensamento de algum tipo, seu próprio ou de alguém; de alguém que ele confia ou de alguém de quem ele nunca ouviu falar, pensamento de primeira, segunda ou terceira mão; pensamento de lendas esquecidas ou de rumores não confirmados; mas sempre algo com a sombra de um sistema de valores e uma razão para preferência. Um homem testa qualquer coisa por meio de alguma coisa. A questão aqui é se ele alguma vez testa o teste.

[…]

Um homem moderno é livre para escolher qualquer uma das filosofias. Mas, a verdadeira questão do homem moderno é que ele não conhece nem mesmo sua própria filosofia, mas somente sua própria fraseologia. Ele pode somente responder à próxima mensagem produzida pelo espiritualista, ou à próxima cura atestada por doutores em Lourdes, com a repetição do que são, geralmente, nada mais que frases; ou são, na melhor das hipóteses, preconceitos.


http://sociedadechestertonbrasil.org/filosofia/o-ressurgimento-da-filosofia-por-que/

G. K. Chesterton: Alguns escritores modernos e a instituição da família



A família pode ser claramente caracterizada como a suprema instituição humana. Todos deveriam admitir que ela tem sido, até agora, a célula mãe e a unidade central de quase todas as sociedades, salvo, na verdade, de sociedades como as da Lacedemônia [1], que decidiram pela “eficiência”, e, portanto, pereceram sem deixar vestígios. O cristianismo, ainda que a revolução tenha sido enorme, não alterou tal antiga e selvagem santidade; simplesmente a inverteu. Não negou a trindade de pai, mãe e filho. Apenas leu em sentido contrário, fazendo-a passar para filho, mãe e pai. Esta não é chamada de família, mas de Sagrada Família, pois muitas coisas são santificadas ao virar de ponta cabeça. Mas alguns sábios, frutos de nossa decadência, lançaram um sério ataque à família. Refutaram-na, a meu ver, erroneamente; e os defensores protegeram-na, e defenderam-na erroneamente. A apologia habitual da família é ser, em meio à tensão e à instabilidade da vida, pacífica, agradável, e cordata. Mas há outra possível defesa da família e, para mim, evidente; a da família não ser pacífica, não ser agradável e não ser cordata.

Não é elegante, hoje em dia, tecer muitos comentários a respeito das vantagens da pequena comunidade. Dizem que devemos participar de vastos impérios e cultivar ideias grandiosas. Há uma vantagem, contudo, num pequeno estado, cidade ou vila, que apenas os deliberadamente cegos conseguem deixar de ver: o homem que vive na pequena comunidade vive num mundo mais amplo. Sabe muito mais sobre as diversidades ameaçadoras e as divergências intransigentes dos homens. O motivo é óbvio. Numa grande comunidade, podemos escolher nossos parceiros. Numa comunidade pequena, os parceiros nos são escolhidos. Assim, em todas as sociedades grandes e altamente civilizadas surgem grupos baseados no que chamamos de afinidade, e excluem o mundo real de um modo mais brusco do que os portões de um monastério. Não há nada verdadeiramente egoísta no clã; o que realmente é limitado é a camarilha. Os homens do clã vivem juntos porque todos usam o mesmo tartan [2] ou descendem da mesma vaca sagrada; mas em suas almas, pela felicidade divina, haverá sempre mais cores que em qualquer tartan. Os homens da camarilha, contudo, convivem porque têm o mesmo tipo de alma, e a pequenez deles é a pequenez da coerência espiritual e da satisfação, como o que há no inferno. A grande sociedade é uma sociedade para a promoção da limitação. É um mecanismo que visa proteger o indivíduo solitário e sensível da experiência dolorosa e fortalecedora de assumir compromissos humanos. É, no sentido mais literal das palavras, uma sociedade para a prevenção da cultura cristã.

Podemos ver tal mudança, por exemplo, na moderna transformação do que chamamos clube. Quando Londres era menor, e as regiões de Londres eram mais reservadas e provincianas, o clube era o que ainda é nos vilarejos, o oposto do que é agora nas cidades grandes. Naquela ocasião, o clube era valorizado como um lugar onde o homem podia ser sociável. Agora, o clube é valorizado por ser um lugar onde podemos ser anti-sociais. Quanto mais dilatada e complicada for nossa sociedade, mais o clube deixará de ser um lugar onde podemos ter uma discussão ruidosa, e se torna, cada vez mais, um lugar onde conseguimos desfrutar de algo fantasticamente chamado de tranquilo aparte. O objetivo de tal clube é tornar o homem confortável, e torná-lo confortável é o oposto de sociável. A sociabilidade, como tudo o que é bom, é cheia de desconfortos, perigos e renúncias. O clube tende a produzir a mais degradada das combinações — o anacoreta voluptuoso, o homem que combina a permissividade de Lúculo com a solidão insana de São Simeão Estilita.

Caso amanhã de manhã fiquemos ilhados pela neve na rua onde moramos, de repente poderemos entrar num mundo muito mais vasto e bravio do que jamais seríamos capazes de imaginar. Eis todo o afã da pessoa tipicamente moderna para escapar da rua onde mora. Primeiramente, forja a ciência sanitária moderna e vai para Margate. [3] Então, fantasia a cultura moderna e vai para Florença. Depois, inventa o imperialismo moderno e vai para Tombuctu. Vai para as fantásticas fronteiras da Terra. Finge atirar em tigres. Quase anda de camelo. E nisso tudo, em essência, ainda está fugindo da rua onde nasceu. Para essa fuga traz sempre pronta a explicação. Diz estar fugindo porque a rua é maçante. Está mentindo. Na verdade, foge da rua porque é excitante demais. É excitante porque é difícil de agradar; é exigente porque está viva. Esta pessoa pode visitar Veneza porque, para ela, os venezianos são apenas venezianos; as pessoas de sua rua são pessoas. Pode cravar os olhos nos chineses porque, para ela, os chineses são passivos e devem ser encarados. Caso olhe fixamente para a senhora idosa no jardim ao lado de casa, a senhora reagirá. Em suma, a pessoa é forçada a fugir de uma sociedade de pares demasiado estimulante — homens livres, perversos, grosseiros, deliberadamente diferentes dela. Uma rua em Brixton é excitante e opressora demais. A pessoa tem de ficar calma e tranquila entre tigres e abutres, camelos e crocodilos; essas criaturas são, de fato, muito diferentes dela. Contudo, não travam, pela forma, cor ou vestimenta, uma clara competição intelectual. Não procuram destruir os princípios da pessoa e afirmar os próprios; já os estranhos monstros da rua suburbana o pretendem fazer. O camelo não contorce o rosto num belo esgar porque o Sr. Robinson não tem uma corcova; já o cavalheiro culto do apartamento de número 5 mostra um sorriso de escárnio porque Robinson não tem um pedestal em seu apartamento. O abutre não gargalhará porque a pessoa não voa; mas, o major do apartamento de número 9 morrerá de rir porque tal pessoa não fuma. A reclamação que normalmente fazemos de nossos vizinhos é que não cuidam, como dizemos, das próprias vidas. Na verdade não pretendemos dizer que não cuidam de suas vidas. Se nossos vizinhos não cuidassem das próprias vidas, seriam bruscamente despejados por deixar de pagar o aluguel e deixariam de ser nossos vizinhos. O que realmente pretendemos dizer ao afirmar que os vizinhos não cuidam da própria vida é algo mais profundo. Não desgostamos deles por terem pouco vigor e brilho a ponto de não conseguirem se interessar por nós. Desgostamos deles porque têm demasiado vigor e brilho e também por conseguirem se interessar por nós. O que tememos em nosso vizinhos, em suma, não é a estreiteza de horizontes, mas a soberba tendência a ampliá-los. E todas as aversões à humanidade mediana têm esse caráter geral. Não são aversões à debilidade (como se julga), mas à energia. Os misantropos fingem que desprezam a humanidade pela fraqueza. Na realidade, odeiam-na pela força.

Esse retrocesso da bestial vivacidade e brutal variedade dos homens comuns é, certamente, uma coisa perfeitamente razoável e desculpável, desde que não alegue qualquer nível de superioridade. Isso ocorre quando o retroceder chama a si mesmo à aristocracia, estetismo, ou da superioridade com relação à burguesia; sua fraqueza interna e tem de ser, por justiça, ressaltada. O tédio é o mais perdoável dos vícios; no entanto, é a mais imperdoável das virtudes. Nietzsche é quem representa, de modo mais eminente, a reivindicação pretensiosa dos enfastiados, e apresenta nalgum lugar uma descrição — potente no sentido puramente literário — da aversão e desdém que o consome ao avistar pessoas comuns com rostos comuns, vozes comuns e mentes comuns. Como já disse, essa atitude é quase bela se não fosse patética. A aristocracia de Nietzsche possui, além disso, a sacralidade dos fracos. Quando nos faz sentir que não suporta os inumeráveis rostos, as incessantes vozes, a avassaladora onipresença característica da multidão, ele obterá a compreensão de qualquer um que tenha estado doente num navio a vapor ou cansado num ônibus lotado. Todo homem odiou a humanidade quando foi menos que um homem. Todo homem já teve a humanidade diante dos olhos como uma bruma, já teve a humanidade entrando pelas narinas como um odor sufocante. Mas quando Nietzsche tem a incrível falta de humor e de imaginação de nos pedir que acreditemos que sua aristocracia é uma aristocracia de músculos fortes ou uma aristocracia de vontades fortes, é preciso mostrar a verdade. É uma aristocracia de nervos fracos.

Escolhemos os amigos, escolhemos os inimigos; mas Deus escolhe nosso vizinho. Por isso chega até nós coberto de todos os imprudentes pavores da natureza; é tão estranho quanto as estrelas, tão precipitado e indiferente quanto a chuva. Ele é o homem, o mais terrível dos animais. Por isso as antigas religiões e a antiga linguagem das escrituras mostravam perspicácia e sabedoria quando falavam não da obrigação para com a humanidade, mas da obrigação para com o próximo. A obrigação com relação à humanidade pode, muitas vezes, tomar a forma de alguma escolha que é pessoal ou mesmo agradável. Essa obrigação pode ser o passatempo predileto; pode até ser um desperdício. Podemos trabalhar no East End [4]porque somos particularmente talhados para este trabalho, ou porque pensamos ser. Podemos lutar pela causa da paz internacional porque gostamos de lutar. O mais monstruoso martírio, a mais repulsiva experiência, pode resultar de uma escolha ou de uma espécie de gosto. Podemos ter o feitio de gostar especialmente de lunáticos ou ter particular interesse pela lepra. Podemos amar os negros por serem pretos ou os alemães socialistas por serem pedantes. Mas temos de amar o próximo porque está —uma razão muito mais alarmante para uma atividade muito mais séria. É um espécime da humanidade que verdadeiramente nos é dado. Justamente porque pode ser qualquer pessoa, ele é toda pessoa. É um símbolo porque é um acidente.
Sem dúvida, os homens fogem de ambientes pequenos para terras muito fatais. Mas isso é muito natural; pois não fogem da morte. Fogem da vida. E este princípio se aplica às várias esferas do sistema social da humanidade. É perfeitamente normal que os homens busquem por uma determinada variedade do tipo humano, não por mera variedade humana. É muito conveniente que um diplomata inglês deva procurar a sociedade dos generais japoneses. Mas, se o que quer são pessoas diferentes dele, estaria mais bem parado se ficasse em casa e discutisse religião com a empregada. É bastante razoável que o rapaz genial do vilarejo ascenda e conquiste Londres, se o que quer é conquistar Londres. Mas se quiser conquistar algo fundamental, simbolicamente hostil e também muito consistente, ganhará muito mais caso permaneça onde está e tenha uma altercação com o reitor. O homem numa rua de subúrbio age muito acertadamente caso vá à Ramsgate [5] por causa de Ramsgate — algo difícil de imaginar. Mas, como se diz, vá a Ramsgate “para uma mudança de ares”, então poderá ter uma mudança muito mais romântica, e até melodramática, caso pule o muro e vá parar direto no quintal do vizinho. As consequências serão mais instigantes, muito além das saudáveis possibilidades de Ramsgate.

Ora, exatamente da forma como esse princípio se aplica ao império, à nação dentro do império, à cidade no interior da nação, à rua nos limites da cidade, da mesma forma o princípio é aplicado à casa na própria rua. A instituição da família merece ser louvada, exatamente pelas mesmas razões que a instituição de uma nação ou a instituição de uma cidade merecem ser elogiadas. É bom para um homem viver numa família pelo mesmo motivo pelo qual é bom para um homem estar envolto por uma cidade. É bom para um homem viver numa família no mesmo sentido que é belo e agradável para um homem ficar preso na rua pela neve. Isso tudo o força a perceber que a vida não é uma coisa exterior, mas algo interior. Acima de tudo, todos insistem em dizer que a vida, se é uma vida estimulante e fascinante, é algo que, pela própria natureza, existe a despeito de nós mesmos. Os modernos escritores ao sugerir, de forma mais ou menos clara, que a família é uma instituição má, limitam-se a dizer, com muita perspicácia, mordacidade ou pathos, que a família nem sempre é muito conveniente. É claro que a família é uma boa instituição porque é desagradável. É saudável exatamente porque contém inúmeras divergências e diversidades. É como dizem os sentimentais, como um pequeno reino, e, como a maioria dos pequenos reinos, em geral está num estado que lembra a anarquia. Exatamente porque nosso irmão George não está interessado em nossas dificuldades religiosas, e sim no restaurante Trocadero; é que a a família tem algo das qualidades estimulantes de uma comunidade. Precisamente porque nosso tio Henry não aprova as ambições teatrais de nossa irmã Sarah é que a família se assemelha à humanidade. Os homens e mulheres que, por boas ou más razões, se revoltam contra a família, se revoltam, simplesmente, com a raça humana. Tia Elizabeth é imoderada, como a humanidade. Papai é emotivo, como a humanidade. Nosso irmão mais novo é levado, como a humanidade. Vovô é obstuso, como o mundo; é velho, como o mundo.
Aqueles que desejam, com ou sem razão, sair de tudo isso, definitivamente desejam entrar num mundo mais limitado. Estão consternados e aterrorizados com a extensão e variedade da família. Sarah deseja encontrar um mundo apenas de apresentações teatrais; George deseja pensar no Trocadero como um cosmo. Não digo, no momento, que a fuga para essa vida mais restrita não seja melhor que a fuga para um monastério. Digo, sim, que é mau e artificial tudo o que tende a fazer as pessoas sucumbirem à estranha ilusão de que estão entrando num mundo realmente mais amplo e diverso do que o próprio mundo. A melhor forma de alguém testar a própria vontade em encontrar a diversidade comum da humanidade seria descer pela chaminé de qualquer casa escolhida ao acaso, e tentar se relacionar, da melhor forma possível, com as pessoas que encontrar. E foi isso, em essência, que cada um de nós fez no dia em que nasceu.

Isto é, de fato, a novela especial e sublime da família. É romântica porque é um jogo de azar. É romântica porque é tudo o que os inimigos a acusam. É romântica porque é arbitrária. É romântica porque está aí. Enquanto grupos de homens fizerem escolhas racionais, sempre haverá certo ambiente especial e sectário. Somente quando temos grupos de homens escolhidos irracionalmente, é que temos homens. O elemento de aventura começa a existir; pois uma aventura é, por natureza, algo que vem ao nosso encontro. É algo que nos escolhe, não uma coisa que escolhemos. Apaixonar-se é muitas vezes considerada a suprema aventura, o acidente romântico último. Isto é verdade na medida em que há algo que nos é externo, algo parecido com um alegre fatalismo. O amor não nos toma, transfigura e tortura; penetra-nos o coração com a insuportável beleza da música. No entanto, uma vez que nos liguemos à questão, caso estejamos, de alguma forma, preparados para nos apaixonar e, num dado sentido, nos lançarmos nisso; uma vez que, de certa forma, escolhamos ou até julguemos — todo o apaixonar não é verdadeiramente romântico, não é absolutamente aventuroso. Neste grau, a aventura suprema não é se apaixonar. A aventura suprema é ter nascido. Aí entramos, de repente, numa armadilha esplêndida e surpreendente. Aí vemos algo que jamais sonháramos. Os pais ficam realmente à espreita e caem sobre nós, como salteadores escondidos atrás da moita. Nosso tio é uma surpresa. A tia é, como diz a expressão comum, caída do céu. Quando entramos numa família, por termos nascido, entramos num mundo incalculável, num mundo que tem leis próprias e estranhas, num mundo que poderia existir sem a nossa presença, um mundo que não criamos. Noutras palavras, quando passamos a fazer parte de uma família, adentramos num conto de fadas.

O aspecto de narrativa fantástica deve se unir à família e às relações que com ela manteremos por toda a vida. Romance é a coisa mais difícil de entender na vida; o romance é ainda mais profundo que a realidade. Pois, mesmo que a realidade se mostre enganosa, todavia não pode ser comprovada sua pouca importância ou inexpressividade. Mesmo se os fatos forem falsos, ainda serão muito estranhos. E a estranheza da vida, esse elemento inesperado e até perverso das coisas ao ocorrer, permanece irremediavelmente interessante. As circunstâncias que podemos controlar podem se tornar tratáveis ou pessimistas; mas as “circunstâncias sobre as quais não temos controle” permanecem divinas para aqueles que, como o Sr. Micawber [6], podem invocá-las e renovar as forças. As pessoas se perguntam por que o romance é a forma mais popular de literatura; perguntam por que o romance é mais lido que livros de ciência ou de metafísica. A razão é muito simples; é meramente porque o romance é mais verdadeiro que os demais livros. A vida pode, às vezes, parecer justamente com um livro de ciência. Pode às vezes parecer, e com maior justiça, com um livro de Metafísica. Mas a vida é sempre um romance. Nossa existência pode deixar de ser uma canção; pode deixar de ser um belo lamento. Nossa existência pode não ser uma justiça inteligível, ou mesmo um erro reconhecível. Mas, nossa existência ainda é uma estória. No ígneo alfabeto de cada pôr de sol está escrito: “prolongar-se-á no seguinte”. Caso tenhamos intelecto suficiente, conseguiremos terminar uma dedução filosófica e exata, e estaremos certos de que a completamos corretamente. Com suficiente capacidade intelectual conseguiremos terminar um descoberta científica e estaremos certos de que a terminamos de forma correta. Contudo, nem com o mais gigantesco intelecto conseguiremos terminar a mais simples e tola estória, e estarmos certos de que a estaríamos terminando de forma correta. A razão é que uma estória carrega consigo, não simplesmente um intelecto parcialmente mecânico, mas uma vontade, que é, em essência, divina. O escritor da narrativa pode mandar seu herói para o patíbulo, no penúltimo capítulo, se quiser. Pode fazer isso pelo mesmo capricho divino com o que ele, o autor, poderá ir para a forca, e depois para o inferno, se quiser. E a mesma civilização, a cavalheiresca civilização européia que afirmava o livre arbítrio no século XIII, produziu uma coisa chamada “ficção” no XVIII. Quando Santo Tomás de Aquino afirmou a liberdade espiritual do homem, criou todos os romances ruins que circulam nas bibliotecas.

Mas, para que a família nos seja uma estória ou romance, é necessário que grande parte dela, de qualquer maneira, seja determinada sem nossa anuência. Caso desejemos que a vida seja um sistema, ela pode vir a ser um problema; mas caso desejemos que a vida seja um drama, ela se torna algo essencial. Amiúde pode acontecer, sem dúvida, que um drama possa ser escrito por alguém de quem pouco gostamos. Mas gostaríamos bem menos, caso o autor se aproximasse perante as cortinas, a cada hora, e nos impusesse a dificuldade de inventar o próximo ato. O homem tem o controle de muitas coisas na vida; tem o controle sobre um número suficiente de coisas para ser herói de um romance. Todavia, caso tivesse controle sobre todas as coisas, seria tão herói que não haveria romance. E a razão por que a vida dos ricos é no fundo tão enfadonha e monótona é simplesmente por poderem escolher os acontecimentos. É tediosa porque são onipotentes. Não percebem as aventuras porque as fabricam. A coisa que mantém a vida romântica e plena de ardentes possibilidades é a existência de grandes limitações naturais que nos forçam a enfrentar as coisas que não gostamos ou que não esperamos. É inútil falar para os altivos modernos a respeito de permanecer em ambientes hostis. Estar num romance é estar num ambiente desagradável. Nascer nesta Terra é nascer num ambiente nada favorável, portanto, é nascer num romance. De todas as limitações e estruturas que moldam e criam poesia e variedade na vida, a família é a mais exata e a mais importante. Portanto, é mal interpretada pelos modernos, que imaginam o romance existir de modo mais perfeito num estado pleno daquilo que entendem por liberdade. Acreditam que se um homem gesticula, isso é algo tão romântico e sensacional que o sol deva cair do céu. No entanto, o que é romântico e surpreendente a respeito o sol é não cair do céu. Buscam, de todas as formas, um mundo onde não haja nenhuma limitação — isto é, um mundo onde não existam contornos; ou seja, um mundo que não possui formas. Não há nada mais vil que esse infinito. Dizem desejar ser tão fortes quanto o universo, mas realmente desejam que todo o universo seja tão fraco quanto eles mesmos.


__________
[1] Outro nome da cidade de Esparta, que produziu conquistadores e governantes militares, mas nunca líderes intelectuais e culturais.

[2] Tecido de lã axadrezado cujos diferentes padrões identificam os clãs escoceses.

[3] A expressão “ir para Margate” significava para os contemporâneos de Chesterton, “nadar para melhorar a saúde”. Margate é uma sofisticada cidade de veraneio inglesa, localizada no estuário do rio Tâmisa cerca de 120 quilômetros ao sudeste de Londres.

[4] Área que fica ao leste de Londres, fora das muralhas medievais da cidade. Durante o século XIX a área foi povoada por pessoas pobres e imigrantes, tornando-se sinônimo de pobreza, criminalidade e doença.

[5] Uma das grandes cidades costeiras da Inglaterra, localizada no distrito de Thanet, a oeste do condado de Kent. No século XIX, recebeu um o principal e mais moderno porto do país e a cidade se tornou um importante lugar de veraneio.

[6] Personagem do romance David Copperfield (1850) de Charles Dickens (1812-1870). Baseada no pai do autor, Wilkins Micawber, sempre esperava um futuro melhor, apesar das circunstâncias. É incauto, porém adorável, e acaba por se tornar juíz colonial.





Tradução e notas

Antônio Emílio Angueth de Araújo
Márcia Xavier de Brito

Saraiva
Livraria Cultura
Ecclesiae

G. K. Chesterton: “O homem pode ser definido como um animal que fabrica dogmas.”


O vício da noção moderna do progresso mental é estar sempre relacionado ao rompimento de laços, à abolição de fronteiras, à rejeição de dogmas. Mas se houver algo parecido com um crescimento mental, isso deve significar crescimento em direção a convicções cada vez mais definidas, que mais e mais vão se tornando dogmas. O cérebro humano é uma máquina de tirar conclusões; se não puder concluir, enferruja. Quando ouvimos falar de um homem inteligente demais para ser crível, escutamos algo que se assemelha a uma contradição em termos. É como ouvir a respeito de um prego bom demais para fixar um carpete; ou de um ferrolho muito firme para manter a porta trancada. O homem dificilmente pode ser definido, à moda de Carlyle, como um animal que fabrica ferramentas. Formigas, castores e muitos outros animais fabricam ferramentas, no sentido de utensílio. O homem pode ser definido como um animal que fabrica dogmas. À medida que empilha doutrina sobre doutrina e conclusão sobre conclusão, ao formar algum enorme esquema filosófico e religioso, está, no único sentido legítimo de que a expressão é capaz, se tornando mais e mais humano. Ao abandonar doutrina após doutrina, num refinado ceticismo, ao recusar filiar-se a um sistema, ao dizer que superou definições, ao dizer que duvida da finalidade, quando, na própria imaginação, senta-se como Deus, não professando nenhum credo, mas contemplando todos, então está, por intermédio do mesmo processo, imergindo lentamente na indistinção dos animais errantes e da inconsciência da grama. Árvores não têm dogmas. Nabos são particularmente tolerantes.

[…]

Alguém reclamou com Matthew Arnold, creio, que ele estava se tornando tão dogmático quanto Carlyle. Arnold respondeu: “Isso pode ser verdade; mas escapa-lhe uma diferença óbvia: Sou dogmático e estou certo, Carlyle é dogmático e está errado”. O grande bom humor da observação não deve ocultar a perpétua seriedade e senso comum; nenhum homem deve escrever algo, ou mesmo falar algo, a menos que pense estar com a verdade e que os outros estejam no erro. Da mesma forma, afirmo que sou dogmático e estou certo, ao passo que o Sr. Bernard Shaw é dogmático e está errado. Mas, meu principal propósito, no momento, é fazer notar que os principais escritores sobre os quais escrevi se apresentam sã e corajosamente como dogmáticos, como fundadores de um sistema. Pode ser verdade que a coisa que mais me interessa no Sr. Shaw seja o fato de o Sr. Shaw estar errado. Mas é igualmente verdade que a coisa que mais interessa ao Sr. Shaw é o fato de estar certo. O Sr. Shaw pode não ter ninguém ao seu lado, a não ser ele mesmo; mas não se preocupa consigo mesmo. Ele se importa com a igreja grandiosa e universal da qual é o único membro.

[…]

Uma incerteza comum em nossos dias no tocante ao uso de convicções extremas é a noção de que tais convicções, especialmente em questões muito abrangentes, foram responsáveis por aquilo que chamamos de intolerância. Contudo, um pouco de experiência direta dissipará tal visão. Na vida real, as pessoas mais intolerantes são as que não têm nenhuma convicção. Os economistas da escola de Manchester que discordam do socialismo, levam o socialismo a sério. O jovem na rua Bond não sabe o que o socialismo significa, muito menos sabe se concorda com isso, e tem certeza absoluta que os socialistas fazem tempestade em copo d’água. O homem que compreende a filosofia calvinista o bastante para com ela concordar deve compreender a filosofia católica para discordar. É o dúbio homem moderno, que não está certo sobre nada, tem certeza de que Dante estava errado. O circunspecto opositor da Igreja Latina ao longo da história, mesmo ao mostrar que ela produziu grandes infâmias, deve saber que produziu grandes santos. É o obstinado comerciante, que não conhece história e não acredita em nenhuma religião, que está, contudo, perfeitamente convencido que todos os padres são patifes. […] A intolerância pode ser definida, grosso modo, como a raiva dos homens que não têm opinião. É a resistência apresentada às idéias definidas por um grupo indefinido de pessoas cujas idéias são excessivamente incertas. […] não foram os diligentes os que perseguiram; não havia número suficiente. Foram os imprudentes que espalharam fogo e opressão pelo mundo. Foram as mãos dos indiferentes que acenderam as tochas; foram as mãos deles que produziram ruína. Da dor de uma certeza passional nasceram algumas perseguições; mas estas produziram não intolerância, mas fanatismo — uma coisa muito diferente e, de certo modo, admirável. A intolerância, em geral, sempre foi a impotência generalizada dos imprudentes esmagando os precavidos.

[…]

Gostemos ou não, sempre teremos uma idéia geral sobre a existência. E tal visão, gostemos ou não, altera, ou mais precisamente, cria e envolve tudo que dizemos ou fazemos. Caso consideremos o cosmo como um sonho, consideraremos a questão fiscal como um sonho. Caso consideremos o cosmo como uma piada, consideraremos a catedral de São Paulo como uma piada. Caso tudo seja ruim, então devemos acreditar (se isto for possível) que a cerveja é ruim; caso tudo seja bom, seremos forçados à conclusão um tanto fantástica de que a filantropia científica é boa. Todo homem comum deve defender um sistema metafísico, e crê-lo firmemente. A grande possibilidade é a de que possa ter acreditado nele tão tenazmente e por tanto tempo que o tenha esquecido por completo.

A referida situação, com certeza, é possível. De fato, é a situação de todo homem moderno. O mundo moderno está repleto de homens que creem em dogmas de modo tão inflexível que nem mesmo sabem que são dogmas.

G. K. Chesterton | Para entender a Idade Média

Illustrated London News, 15 de novembro de 1913
Tradução: Quadrante (Getting to Know the Middle Ages)

É inteiramente razoável que os homens prósperos do nosso tempo não saibam História. Se a conhecessem, teriam de conhecer a história muito pouco edificante de como se tornaram prósperos…

É inteiramente razoável, digo, que não saibam História: mas por que raios pensam que sabem? Aqui está uma opinião, tomada a esmo do livro de um dos mais cultos dentre os nossos jovens críticos, obra muito bem escrita e inteiramente digna de confiança – quando trata do seu próprio tema, que é um tema moderno. Diz esse escritor: “Na Idade Média, houve pouco ou nenhum avanço social ou político” até a Reforma e a Renascença.

Ora, eu poderia igualmente bem afirmar que, no século XIX, houve pouco avanço na ciência e na técnica até a vinda de William Morris (1), e depois justificar essa afirmação dizendo que não tenho nenhum interesse pessoal por teares a vapor ou águas-vivas – o que certamente é o caso. Porque isto é tudo o que o escritor realmente quis dizer: que não tem nenhum interesse pessoal por arautos ou abades mitrados. Tudo isso está muito bem; mas por que, ao escrever sobre coisas que não existiam na Idade Média, esse autor sente a necessidade de dogmatizar sobre um assunto de que evidentemente nunca ouviu falar? E sobre o qual, apesar de tudo, talvez ainda se pudesse contar uma História muito interessante?

Pouco antes da conquista pelos normandos (2), países como o nosso apresentavam um feudalismo ainda incipiente e completamente pulverizado, sulcado por contínuas ondas de bárbaros, bárbaros que nunca tinham montado um cavalo. Praticamente não havia casa de pedra ou de tijolo na Inglaterra; quase não havia estradas, apenas sendas batidas; praticamente não havia lei, apenas costumes locais. Essa era a Idade das Trevas, da qual surgiria a Idade Média.

Mas tomemos agora a Baixa Idade Média, duzentos anos depois da conquista normanda e praticamente outro tanto antes do início da Reforma. As grandes cidades surgiram; os cidadãos são privilegiados e importantes; os trabalhadores organizaram-se em Corporações de Ofício livres e responsáveis; os Parlamentos são poderosos e litigam com os próprios reis; a escravidão desapareceu quase por completo; abriram-se as grandes Universidades, que ministram esse programa de ensino tão admirado por Huxley (3); repúblicas tão orgulhosas e patrióticas como as dos antigos pagãos erguem-se como estátuas de mármore ao longo da costa mediterrânea; e por todo o norte os homens construíram igrejas tão grandiosas que os homens talvez nunca mais as igualem. E isso – que, na sua maior parte, foi realizado mais propriamente não em dois, mas em um século –, é a isso é o que o nosso crítico chama “pouco ou nenhum avanço social ou político”. Praticamente não há instituição moderna importante que tenha influenciado a sua vida – da escola em que estudou ao Parlamento que o governa –, que não teve os seus principais avanços na Idade Média.

Se alguém pensa que escrevo isso por pedantismo, espero poder mostrar-lhe em um momento que tenho um objetivo mais humilde e mais prático. Quero considerar a natureza da ignorância, e começo por dizer que, em qualquer sentido escolar e acadêmico, sou eu mesmo muito ignorante. Assim como dizemos de um homem como Lord Brougham (4) que tinha um grande conhecimento geral, eu diria que tenho uma grande ignorância geral.

Só que este é exatamente o ponto a que pretendia chegar. É um conhecimento geral e uma ignorância geral: sei pouco de História, mas sei um pouco de quase toda a História. Não sei muito, digamos, sobre Martinho Lutero e sua Reforma, mas sei que ela fez uma diferença enorme; ora, não saber que o rápido progresso dos séculos XII e XIII fez uma diferença enorme é pelo menos tão extraordinário como nunca ter ouvido falar de Martinho Lutero. Também não estou muito bem informado sobre os budistas, mas sei que se interessam por filosofia; não saber que os budistas se interessam por filosofia, acredite em mim, seria tão chocante como não saber que os medievais se interessavam pela experimentação e pelo progresso políticos.

Da mesma forma, não sei muito sobre Frederico o Grande. Na minha infância, a enorme coleção de volumes de Carlyle sobre o assunto inspirava-me medo: parecia haver tantas coisas a conhecer! No entanto, apesar desses receios, eu seria perfeitamente capaz de adivinhar, com uma razoável probabilidade de acerto, o tipo de assunto que esses volumes continham. Por exemplo, eu arriscaria (penso que não incorretamente) que os volumes deviam conter a palavra “Prússia” em um ou mais lugares; que, de tempos a tempos, se falaria de guerra; que se faria alguma menção de tratados e fronteiras; que a palavra “Silésia” poderia ser encontrada caso se procurasse diligentemente, bem como os nomes de Maria Teresa e Voltaire; que em algum lugar de todos aqueles volumes, o seu grande autor diria se Frederico o Grande tivera um pai, se chegara a casar-se, se possuíra grandes amigos, se tivera algum hobby ou aficção literária de qualquer tipo, se havia morrido no campo de batalha ou na cama, e assim por diante. Se eu tivesse reunido coragem suficiente para abrir um daqueles volumes, provavelmente teria encontrado alguma coisa, ao menos nessas linhas gerais.

Agora, troque a imagem; imagine o jornalista ou homem de letras comum, jovem e bem educado, recém-saído de uma escola pública ou faculdade, parado diante de uma coleção ainda maior de livros ainda maiores das bibliotecas da Idade Média – digamos, todos os volumes de São Tomás de Aquino. Digo-lhe que, de nove casos em dez, aquele jovem bem-educado não tem a menor noção do que iria encontrar naqueles volumes encadernados em couro. Pensa que irá encontrar discussões sobre as capacidades dos anjos de se equilibrarem sobre pontas de agulhas, e talvez o fizesse. Mas afirmo que ele não pensa – nem de longe – que irá encontrar um professor universitário a discutir quase todas as coisas que Herbert Spencer discutiu: política, sociologia, formas de governo, monarquia, liberdade, anarquia, propriedade privada, comunismo, e todas as variadas idéias que, no nosso tempo, se dedicam a brigar em nome do futuro “socialismo”.

Igualmente, não sei muito sobre Maomé ou o maometanismo. Não levo o Alcorão para ler na cama toda noite. Mas, se em determinada noite o fizesse, há pelo menos um sentido em que sei o que não encontrarei nele. Suponho que a obra não transbordará de fortes encorajamentos ao culto dos ídolos; que não se cantarão ali em alta voz os louvores do politeísmo; que o caráter de Maomé não será submetido a nada que se parece com o ódio e o ridículo; e que a grande doutrina moderna da irrelevância da religião não será enfatizada sem necessidade.

Mas troque novamente a imagem, e imagine o homem moderno (o pobre homem moderno) que tivesse levado um volume de teologia medieval para a cama. Ele esperaria encontrar ali um pessimismo que não há, um fatalismo que não há, um amor à barbárie que não há, um desprezo pela razão que não há.

Aliás, seria na verdade muito bom que fizesse a experiência. Far-lhe-á bem de uma forma ou de outra: ou o fará dormir – ou o fará acordar.




——
(1) William Morris (1834-1896): Artista e escritor inglês, contribuiu com grande sucesso para a valorização e o aprimoramento das mais variadas formas de arte (desde a decoração até a arquitetura e a iluminura), chegando mesmo a fundar empresas bem-sucedidas nesse ramo (entre elas, a tipografia Kelmscott Press, em 1890). Ao fim da vida, deixou de lado os seus êxitos artísticos e empresariais para dedicar-se a difusão de idéias socialistas.
(2) A conquista da Inglaterra pelos normandos comandados por Guilherme o conquistador ocorreu no ano de 1066.
(3) Thomas Henry Huxley (1825-1895): biólogo inglês, amigo de Charles Darwin e um dos maiores defensores e divulgadores da teoria evolucionista, o que fez especialmente através do seu livro Man´s Place in Nature (“O lugar do homem na natureza”, 1863), em que pela primeira vez os princípios do evolucionismo são aplicados ao homem.
(4) Henry Peter, Lord Brougham (1778-1868): político britânico nascido em Edimburgo. Suas numerosas obras, às vezes contraditórias entre si, cobriram quase todos os ramos do conhecimento da época, tendo ele escrito sobre Filosofia, Teologia, Economia e até Matemática. Destacou-se também por ter fundado revistas e sociedades de difusão do conhecimento e por ter realizado reformas no Parlamento britânico. 

________________________________________